Sunday, July 23, 2006

Derrota


DERROTA, minha Derrota, minha solidão e meu isolamento,
És para mim mais cara do que um milhar de triunfos,
E mais doce ao meu coração do que toda a glória do mundo.
Derrota, minha Derrota, meu autoconhecimento e meu desafio,
Por ti sei que sou ainda jovem e de pés ligeiros
E acima da cilada de lauréis que murcham.
Em ti encontrei solidão
E a alegria de ser evitado e desdenhado.
Derrota, minha Derrota, minha brilhante espada e meu escudo,
Em teus olhos li
Que ser entronizado é ser escravizado,
E ser compreendido é ser rebaixado,
E ser alcançado beneficia apenas os outros
E, como um fruto maduro, cair e ser consumido,
Derrota minha Derrota, minha ousada companheira,
Ouvirás minhas canções e meus gritos e meus silêncios,
E ninguém senão tu me falará do bater das asas,
E da agitação dos mares,
E das montanhas que ardem à noite,
E só tu escalarás as rochas e penhascos da minha alma.
Derrota, minha Derrota, minha coragem que nunca morre,
Tu e eu riremos juntos com a tempestade,
e juntos cavaremos tumbas para tudo o que morre em nós,
E ficaremos de pé ao sol com uma vontade indomável,
E seremos perigosos.

Saturday, July 22, 2006

Felicidade


Enquanto perseguires a felicidade,
Não estás maduro para ser feliz,
Ainda que possuas tudo quanto amas.

Enquanto lamentares as coisas perdidas
E tiveres metas e inquietações
Não saberás ainda o que é paz.

Só quando renunciares a cada desejo
Desconhecendo objetivos e cobiças,
E não nomeares mais a felicidade,

Então só então, a torrente do devir
Não tocará mais teu coração
E tua alma em paz repousará.

Friday, July 21, 2006

O Louco


"Foi no jardim de um hospício que encontrei um jovem de face pálida e formosa, e cheia de espanto.
Sentei-me no banco ao seu lado e perguntei-lhe: - Porque está aqui?
E ele olhou-me, admirado e disse: - É uma pergunta indiscreta; contudo, vou reponder-lhe. Meu pai queria fazer de mim uma reprodução de si próprio; o mesmo queria meu tio. Minha mãe pretendia fazer de mim a imagem de seu ilustre pai. Minha irmã considerava seu marido, marinheiro, como o exemplo do que eu deveria seguir. Meu irmão achava que eu tinha que ser como ele, um excelente atleta.
E meus professores também, o lente de filosofia, e o professor de música, e o de lógica, cada um queria que eu não fosse senão reflexo de sua própria face.
Desta forma, vim para este lugar. Acho mais são aqui. Pelo menos, posso sser eu mesmo.
Depois subitamente, virou-se para mim e perguntou: - Mas, diga-me, o senhor também foi trazido a este lugar pela educação e o bom conselho?
E eu respondi: - Não, eu sou um visitante.
Ele disse: - Ah, o senhor é um daqueles que vivem no hospício do outro lado da muralha."

Saturday, July 15, 2006

Fluxos da vida


Acordo para o futuro edificando o meu tempo vivido na frugal paz...
Mas eis que de repente acordo atônito e vejo as coisas cristalinas.
Não tens que me amar ... Terror se aflora em mim, não da solidão ...
Mas sim de te perder para viver só nesta insólita realidade.
Encho-me de esperanças, quando teu sorriso flui no meu ser,
Deixando-me involto em um halo de ternura e carinho a muito esquecidos,
Embebendo-me com a esperança da primeva felicidde.
Fico desesperado diante do reflexo de minhas limitações.
Nada tenho a te oferecer além de uma "imagem" de carne,
Que busca a felicidade no imo questionamento de anseios,
Tentando encontrar a totalidade redentora,
Ou será ela uma Quimera?

Clareza e verdade


Clareza e verdade - palavras que freqüentemente ouvimos juntas, como se significassem mais ou menos a mesma coisa. E entretanto designam coisas tão diversas! Rara, muito raramente é clara uma verdade. E mais raramente ainda é a clareza verdadeira! A verdade é quase sempre complexa, obscura ambígua. Toda palavra, especialmente a palavra tida como "clara", violenta a verdade. "Clareza" é sempre violência. É a tentativa brutal de simplificar o que é complexo, de fazer o natural parecer compreencível ou plausível. A clareza é a virtude das sentenças. As sentenças podem ser belas, dignas, pedagógicas, espirituosas, conclusivas: só verdadeiras é que jamais são. E, de fato, o contrário de uma sentença é também sempre verdade.

Thursday, July 13, 2006

Saber e consciência


O Homem que vejo cheio de temor, esperança, ansiedade, propósitos, exigências, não é homem; é apenas um embaçado espelho de minha vontade. Eu olho, fazendo, consciente ou inconsciente, essas angustiosas e desnorteantes perguntas: "Será esse sujeito acessível ou soberbo? Será que me respeita? Posso acaso pedir-lhe dinheiro emprestado? Entenderá ele de arte?" Com milhares de perguntas desse tipo olhamos a maioria dos homens com que lidamos. E temo-nos na conta de psicólogos e conhecedores da humanidade, quando, vendo-os através de sua aparência esterna, de seu aspecto, de seu comportamento, logramos explicar aquilo que ou serve ao nosso propósito ou a ele se opõe. Mas essa é uma visão demasiado estreita. E, nesse tipo de psicologia, o lavrador, o mascate, o rábula é superior à maioria dos políticos e letrados.

Friday, July 07, 2006


Quanto mais, por nossas características pessoais, por nossa aguda sensibilidade, por nossa esmerada educação, estivermos preparados para a leitura, tanto melhor sentiremos cada pensamento lido e cada poema, no que têm de singular, de próprio, de intimamente fascinante. Vemos então que toda a sua beleza, todo o seu encanto, repousam precisamente nesse seu caráter peculiar e inconfundível. Contudo percebemos também e de maneira bem clara que todos esses milhares de vozes dos povos mais diversos anseiam pelo mesmo objetivo, invocam os mesmos deuses sob nomes diverentes, sonham os mesmos sonhos, sofrem e padecem as mesmas dores. Vida dos albores da história, feita do emaranhado tecido de inúmeras línguas e livros, eis que se põe a fitar, num momento iluminado, uma estranha rica e potentíssima quimera: - a esfíge do homem, miraculosamente una em seus milhares de traços contrastantes.

Thursday, July 06, 2006

Transformações - Parte 6


Mal a jovem pegou a pedra mágica com sua mão branca, realizou-se o desejo que inundava seu coração. A bela foi arrebatada, tombou e uniu-se à árvore, emergiu do seu tronco como um vigoroso ramo novo, e rapidamente cresceu até o cimo.

Agora estava tudo bem, o mundo estava em ordem, só agora fora encontrado o Paraíso. Piktor já não era uma árvore velha e triste, agora cantava bem alto, Piktoria, Viktoria.

Estava transformado. E porque dessa vez alcançara a metamorfose verdadeira, eterna, porque passara de uma metade ao Todo, a partir dessa hora podia transformar-se o quanto quisesse. O fluido mágico do vir-a-ser circulava continuamente pelo seu sangue, e ele participava eternamente da incessante Criação.

Tornou-se Cervo, tornou-se Peixe, tornou-se Homem e Serpente, Nuvem e Pássaro. Mas em cada forma era um todo, era um par, tinha Lua e Sol, tinha em si Homem e Mulher, e como rios gêmeos correu pelos países e pairou no céu como uma dupla.

Wednesday, July 05, 2006

Transformações - Parte 5



A jovem ouviu um rumor nas folhas da Árvore Piktor, ergueu os olhos para ela e sentiu, com súbita dor no coração, novos pensamentos, novo anseio, novos sonhos agitando-se em seu próprio interior. Atraída por uma força desconhecida, ela se sentou debaixo da árvore, que lhe parecia solitária, solitária e triste, e não obstante, comovente e nobre em sua muda tristesa; a canção de sua copa, em suave sussuro, soava fascinando-a. Ela recostou-se no áspero tronco, sentiu a árvore estremecer fundo, sentiu o mesmo frêmito no próprio coração. O coração lhe doía singularmente, sobre o céu de sua alma deslizavam nuvens, lentamente lágrimas corriam de seus olhos. O que era aquilo? Por que precisava sofrer tanto? Por que o coração anelava rebentar o peito, e fundir-se nela, com ele, o belo solitário?

A árvore estremeceu de leve até as raízes, tão fortemente reunia em si todas as forças vitais, ao encontro da jovem, no ardente desejo de união. Ah, fora ludibriado pela Serpente, exilando-se para sempre, confinando-se solitário em uma árvore! Ah, que cego, que tolo fora! Então não soubera de nada, estivera tão alheio ao segredo da vida? Não, bem que ele o sentira e adivinhara aquela vez, obscuramente - ah, e com tristeza e profunda compreensão pensava ele agora na árvore, que era a um tempo Homem e Mulher!

Chegou um pássaro voando, um pássaro vermelho e verde, um pássaro belo e atrevido chegou voando, em círculo se aproximando. A jovem o viu voar, e de seu bico algo soltar, vermelho e brilhante como sangue, vermelho como fogo; algo que caiu na verde relva e na verde relva brilhava com tanta confiança, sua luz vermelha cortejando tanto, que a jovem se curvou e o objeto vermelho pegou. Era um cristal, era um rubi, e onde quer que este está não pode existir mais escuridão.

Transformações - Parte 4


Certo dia, errava por aquela região do Paraíso uma jovem de cabelos louros e vestido azul. Cantando e dançando a loura corria entre as árvores, e até então nunca pensara em desejar o dom da transformação.

Muito macaco astuto sorria atrás dela, muito arbusto tocava-a delicadamente com um ramo, uma maçã, sem que isso ela se apercebesse.

Quando a árvore Piktor avistou a jovem., foi tomada de uma grande saudade, um desejo de felicidade, como jamais sentira. E ao mesmo tempo caiu em profunda reflexão, pois sentia que seu próprio sangue lhe dizia:

- Pensa bem! Lembra-te nesta hora de toda a tua vida, encontra o sentido disso tudo, ou será tarde demais, e nunca mais terás felicidade.

Ele obedeceu. Lembrou-se de toda a sua origem, seus anos como homem, sua viagem ao Paraíso, e especialmente daquele instante antes de se tornar árvore, aquele extraordinário momento em que tivera nas mãos a pedra encantada. Naquela ocasião, como tinha à escolha qualquer transformação, a vida ardera nele como nunca! Pensou no pássaro que aquela vez rira, e na árvore com Sol e Lua; e presentiu que naquela ocasião perdera algo, esquecera algo, e que o conselho da Serpente não fora bom.

Tuesday, July 04, 2006

Transformações - Parte 3


De súbito, no galho de uma árvore morta, enroscou-se a Serpente e sibilou no ouvido de Piktor:

- A pedra te transformará no que quiseres. Diz-lhe depressa teu desejo, antes que seja tarde!

Piktor assustou-se e teve medo de perder esta oportunidade de alcançar sua felicidade. Disse rapidamente a palavra, e transformou-se em árvore. Pois muitas vezes desejara ser árvore, porque as árvores lhe pareciam plenas de paz e dignidade.

Piktor transformou-se em uma árvore. Suas raízes cresciam terra adentro, ele elevava-se às alturas, folhas e ramos emergiam de seus membros. e com isto ele ficou muito satisfeito. Suas fibras sedentas sugavam no fundo da terra fresca, e balouçava suas folhas alto no azul. Besouros moravam em sua casca, a seus pés moravam lebres e ouriços, e os pássaros habitavam seus ramos.

A Árvore Piktor estava feliz, e não contava os anos que passavam. Passaram-se muitos, muitos anos, antes dele notar que sua felicidade não era perfeita. Só lentamente aprendeu a ver com olhos-de-árvore. Por fim, conseguiu ver, e ficou triste.

Viu ao redor dele, no Paraíso a maioria das criaturas se transformava freqüentemente, sim, tudo fluía em uma torrente mágica de eterna metamorfose. Viu flores se transformarem em pedras preciosas, ou saírem voando como pássaros cintilantes. Viu a seu lado muita árvore sumir de repente: uma derreteu-se e tornou-se fonte, outra se tornava crocodilo, outra, agora peixe, nadava, indo embora alegre e fresca, cheia de gozo, com vivacidade, executando novos jogos em novas formas. Elefantes trocavam de roupa com rochedos, girafas assumiam a forma de flores.

Mas ele, a Àrvore Piktor, era sempre a mesma, não podia mais se transformar. Desde que reconheceu isso, sua felicidade desvaneceu-se; começou a envelhecer, assumindo cada vez mais aquela postura cansada, grave e preocupada, que se pode observar em muitas árvores velhas. Também em cavalos, pássaros, pessoas e todas as criaturas, pode-se ver isso diariamente. Quando não possuem o dom da transformação, com o tempo decaem em tristeza, e perdem a beleza.

Transformações - Parte 2


Piktor viu pousado um pássaro, viu-o na relva pousado, cintilando de cores, o belo pássaro parecia possuir todas as cores. E perguntou ao lindo pássaro colorido:

- Oh pássaro!, onde está a felicidade?

- A felicidade? - disse o belo pássaro, rindo com seu bico dourado. - Oh, amigo, a felicidade está por toda a parte, na montanha e no vale, na flor e no cristal.

Com essas palavras, o alegre pássaro agitou sua plumagem, moveu o pescoço, balançou a cauda, piscou os olhos riu mais uma vez, depois ficou pousado imóvel, pousado quieto na relva e vejam: o pássaro agora, se transformara em uma flor colorida, as plumagens eram folhas, as garras, raízes. No brilho da cor, no meio da dança, ele se fizera flor. Piktor o viu, espantado.

Logo depois a flor-pássaro moveu suas folhas e estames, cansou-se outra vez de ser flor, já não tinha mais raízes, moveu-se com leveza, alcançou-se lentamente no ar, e tornou-se uma borboleta luzente, que se movimentava flutuando, sem peso, toda luz, toda um rosto iluminado. Piktor arregalava os olhos.

Mas a nova borboleta, a alegre e colorida borboleta-flor-pássaro, o claro rosto colorido, voou em círculos em torno do espantado Piktor, cintilou ao sol, baixou suavemente sobre a terra, como um floco de neve, pousou junto aos pés de Piktor, respirou docemente, tremeu um pouco as asas cintilantes, e logo se transformou em um cristal colorido, ce cujas extremidades se irradia uma luz vermelha. A gema rubra brilhava maravilhosamente na relva entre folhagens verdes, clara como sino de festa. Mas sua Pátria, o interior da Terra, parecia chamá-la; logo começou a diminuir ameaçando afundar. Então, dominado por um desejo incontrolável, Piktor estendeu a mão para a gema que desaparecia, e tomou-a para si. Contemplou encantado a sua luz mágica, que parecia iluminar seu coração com o pressentimento da absoluta felicidade.

Monday, July 03, 2006

Transformações - Parte 1


Mal entrara no Paraíso, Piktor deparou com uma árvore que era a um tempo Homem e Mulher. Piktor saudou a árvore respeitosamente e perguntou:

- Você é a Árvore da Vida ?

Mas quando a Serpente lhe quis responder em lugar da árvore, ele se afastou e seguiu adiante. Olhava para tudo atentamente, tudo lhe agradava tanto! E sentia, nitidamente, que estava na Pátria e na Fonte da Vida.

E novamente viu uma árvore que era a um tempo Sol e Lua.

Piktor Disse:

- Você é a Árvore da Vida?

O Sol acenou com a cabeça e riu e a Lua acenou com a cabeça e sorriu. As mais maravilhosas flores miravam-no, com luzes e cores variegadas., com diversos olhos e rostos. Algumas lhe acenavam e riam, outras lhe acenavam e sorriam, outras nada disso faziam: calavam-se, submersas em si mesmas, como que afogadas no próprio perfume. Uma cantava a canção dos lilases, uma cantava a canção de ninar azul-marinho. Uma das flores tinha grandes olhos azuis, outra fez lembrar seu primeiro amor. Uma tinha o aroma do jardim da sua infância, como a voz da mãe, soava o seu doce perfume. Outra riu para ele, e lhe estendeu uma comprida língua curvilínea e rubra. Ele a lambeu: tinha um sabor forte e silvestre de resina e mel, e também do beijo de uma mulher.

No meio de todas aquelas flores, estava Piktor, cheio de saudade e temerosa alegria. Como se fosse um sino, seu coração batia pesadamente, batia muito: seu desejo ardia saudosamente ansiando pelo desconhecido, pelo magicamente pressentido.

Viver a vida


Quero viver a vida, tempo esparzido ...
Vida suada, vida conquistada, vida sofrida, vida vivida ....
O amor que achei na vida, é puro mel, amargo fel ....
Que tanto me apraz, trazido será pelo destino?
Quero amar a vida, amor que tanto me abriga,
Mas de todo me fatiga.
Quero achar-me perdido no teu mundo, terra exuberante.
Perder-me no meu êxtase, louvando esse templo de sedução
Na vida encontrei a ti minha doce "amiga"
Que tanto me abriga, como me realiza,
Alicersando a minha vida que há de ser vivida.

Sonho



Lindo sonho paradisíaco, tu me renovas continuamente
Quando te vejo tudo é mágico, Não te posso conceber com outro.
Mas sei que és um lindo sonho. Dentro de mim sei que te quero,
Mas ao mesmo tempo me reprimo, pois tu és somente um sonho,
Sonho que muito me acalenta. Tu és força tu és vida.
Teu sorriso tem um doce frescor, frescor de um âmbar afrodisíaco.
Com todas as minhas forças peço que me ames,
Mas ao mesmo tempo, peço que me ignores ...
Rogo pela liberdade de te ver, sentir teu sorriso, teu olhar,
Mas enfim, tu és um lindo sonho ....
Sonho que me cativa, sonho que me leva a felicidade.

Florido


Florido está o pessegueiro,
Mas nem todos botões serão frutos,
Cintilam claros como espuma de rosas
Diante do azul do céu e do correr das nuvens
Pensamentos brotam como flores,Centenas a cada dia -
Deixa que floreçam! deixa acontecer!
Não queiras saber qual é o fruto!
É preciso jogo, e inocência,
E inundação de flores,
Ou o mundo nos seria demais pequeno,
E a vida sem nenhum sabor.

Luxúria


Nada mais que torrentes e labaredas,
Correr cegamente para as brasas,
Arrebatado, entregue
À infinita chama: vida!
Mas súbito, em um frêmito de medo,
Retrai-me o coração angustiado
Dessas felicidade sem fim,
Pois anteviu, no amor, a morte...