Tuesday, July 04, 2006

Transformações - Parte 3


De súbito, no galho de uma árvore morta, enroscou-se a Serpente e sibilou no ouvido de Piktor:

- A pedra te transformará no que quiseres. Diz-lhe depressa teu desejo, antes que seja tarde!

Piktor assustou-se e teve medo de perder esta oportunidade de alcançar sua felicidade. Disse rapidamente a palavra, e transformou-se em árvore. Pois muitas vezes desejara ser árvore, porque as árvores lhe pareciam plenas de paz e dignidade.

Piktor transformou-se em uma árvore. Suas raízes cresciam terra adentro, ele elevava-se às alturas, folhas e ramos emergiam de seus membros. e com isto ele ficou muito satisfeito. Suas fibras sedentas sugavam no fundo da terra fresca, e balouçava suas folhas alto no azul. Besouros moravam em sua casca, a seus pés moravam lebres e ouriços, e os pássaros habitavam seus ramos.

A Árvore Piktor estava feliz, e não contava os anos que passavam. Passaram-se muitos, muitos anos, antes dele notar que sua felicidade não era perfeita. Só lentamente aprendeu a ver com olhos-de-árvore. Por fim, conseguiu ver, e ficou triste.

Viu ao redor dele, no Paraíso a maioria das criaturas se transformava freqüentemente, sim, tudo fluía em uma torrente mágica de eterna metamorfose. Viu flores se transformarem em pedras preciosas, ou saírem voando como pássaros cintilantes. Viu a seu lado muita árvore sumir de repente: uma derreteu-se e tornou-se fonte, outra se tornava crocodilo, outra, agora peixe, nadava, indo embora alegre e fresca, cheia de gozo, com vivacidade, executando novos jogos em novas formas. Elefantes trocavam de roupa com rochedos, girafas assumiam a forma de flores.

Mas ele, a Àrvore Piktor, era sempre a mesma, não podia mais se transformar. Desde que reconheceu isso, sua felicidade desvaneceu-se; começou a envelhecer, assumindo cada vez mais aquela postura cansada, grave e preocupada, que se pode observar em muitas árvores velhas. Também em cavalos, pássaros, pessoas e todas as criaturas, pode-se ver isso diariamente. Quando não possuem o dom da transformação, com o tempo decaem em tristeza, e perdem a beleza.

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